“O FENÔMENO CEARÁ” (CRÔNICAS DE EDGAR, 17-IX-2002)

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No Ceará pode não ter bacabal, mas em Bacabal tem Ceará. Mas quem é essa criatura: um homem? Um mito? Um fenômeno? Um deus? Não se sabe ao certo, como não são poucas as especulações em torno do caso, que já ultrapassa as fronteiras do município, do estado e quiçá da nação. Não há um bacabalense ou visitante − cujo fluxo tem aumentado consideravelmente – e mesmo setores e facções que não se curvem a um ar de comentários, curiosidade ou graça diante desse nome curto e grosso. O que todos sabem com acerto é que Ceará é um candidato a Deputado Estadual. Mas não um candidato qualquer. É diferente, diferentíssimo. Antes de qualquer coisa, Ceará está na boca do povo e não apenas dos microfones e dos trios elétricos. Ele já não se pertence, mas pertence à sua grande e crescente multidão de adeptos, seguidores e simpatizantes. E por assim ser, todo mundo dá seu palpite, tenta explicar esse fato inusitado, que na falta de um nome específico, estão denominando-o de “Ceará, o fenômeno”. Mas há outras metáforas como “o homem que o povo quer”, “o Ceará bacabalense”, “o voto de repúdio”, “o voto de protesto”…

Uma líder comunitária, referindo-se à situação financeira dele, denominou-o de “retrato de Bacabal”; um professor classificou-o como “uma brincadeira séria”; um aluno garantiu que, dependendo dele, Ceará já estava “um homem eleito”; um grupo de amigos comentava que o fenômeno era “uma ameaça aos grandes”; um contrapartidário subiu ao opulento palanque e publicamente xingou-o de “um mendigo”, outro grupo rebateu a ofensa com outra ofensa, ao que o povo aplaudiu veementemente. Enquanto isso, no terreiro, uns anciões concordavam que “o fenômeno” era a grande esperança da nossa gente como Deputado e quem sabe como prefeito.

Ceará realmente está com o povo e, principalmente, o povo está com o Ceará. Nunca entre nós um nome foi tão badalado, tão voluntariamente divulgado; nunca um número de candidato foi tão cogitado. 14615: esse é o número da febre, o número da sorte, o número do homem. Mas é um homem rico? É famoso? É membro nato de algum grupo de força? Não. Ao contrário disso, é um homem simples, inculto e pobre. Não chega a ser um “Jó” porque nunca foi rico, apesar de ter sido abandonado pela mulher, que o deixou com três filhos para criar. Não é famoso, senão pela força atual desse nome – que nem é seu; talvez ele seja cearense – e pela sua desmedida humildade. Não chega a ser um pobre homem, porque é um herói da vida, tem seus sonhos e busca realizá-los, mas é um homem pobre. Que o digam as ruas de Bacabal, que o conhecem pela nobre “profissão” de verdureiro. E pouco há na cidade quem não lhe tenha comprado alguma verdura, legume ou frutas, por algum valioso real. Também não lhe impera o privilégio de compor “reinos políticos” ou oligarquias; sua origem é plebeia e, só a democracia aliada à ousadia o fez entrar de cara e pleitear uma vaga na Assembleia Legislativa. É impossível? Só o tempo dirá, mas os acontecimentos correntes já dizem que sim. A burocracia de registro de candidatura já é fato superado, ainda que custeada por terceiros e duvidada pelos bastidores. Eis um já vencedor.

Iniciou-se a campanha e hoje Ceará é uma dessas febres que não se sabe de onde veio e até onde vai chegar. De repente o pleito tomou proporções de um mutirão voluntário. Eram os “Amigos do Ceará”, que tudo faziam por ele, e por querer, e por amor, e por adesão, e por sei lá o quê… Dizem que logo no início, nos primeiros passos que Ceará deu ao público, ele apenas mostrava um único panfleto seu em preto e branco, a pessoa anotava o número e ele seguia com o panfleto em frente. Se, de fato, isso aconteceu, foi por pouco tempo, pois logo Ceará foi descoberto, tornou-se “o fenômeno” e o povo adotou-o para ajudá-lo – e elegê-lo. Levantaram fundos, fizeram “vaquinhas” para custear as mais variadas despesas que “o homem” precisava. O povão por si já estava convicto, já sabia o que queria. Muitos empresários aderiram de imediato: um fez doação de inúmeros panfletos coloridos, outro lhe garantiu cestas básicas para ele e seus três filhos menores até o final do pleito; um magnata conceituado agraciou-lhe com sapatos, acessórios e dois paletós, um dos quais para o dia da posse; um empresário bem-sucedido disponibilizou lhe um carro novo com motorista; outro ainda o levou de mudança para um hotel três estrelas, por falta de um cinco estrelas na cidade; garantiram-lhe também sua segurança pessoal, ganhou ainda roupas, calçados, gravações de músicas para sua campanha, carros de som e coisas do gênero.

Organizaram, de improviso, uma passeata. Não foi difícil a divulgação, o combustível, os cartazes e faixas. Empresários e populares metiam a mão no bolso e doavam, e davam, e emprestavam o que podiam, às vezes apenas pela febre ou por futuro interesse. Uns doaram a tinta, a tela, outros as camisas, cujos pintores foram voluntários. No calçadão havia uma aglomeração. E o que era? Eram os “Amigos do Ceará”, de tela e tinta, num balcão improvisado a pintar camisas e mais camisas, enquanto os eleitores-fregueses saíam enxugando a camisa ao vento pelo valor de três reais. No mesmo calçadão, só um camelô havia vendido 80 camisas para a passeata logo mais. Na verdade, mais do que uma passeata, era uma carreata, cicloata, motoata, carroceata, todos irmanados a um só cidadão, o Ceará, que, como um profeta ia ao meio, acenando banguelamente a um mar de gente, que também aguardava aos montes nas praças, esquinas e calçadas. Um adepto expunha com fervor algumas frutas em sua bicicleta como simbologia viva do seu candidato, outros preferiam os panfletos, outros erguiam cartazes feitos à mão, e mais buzinas, foguetes, gritos, euforia e felicidade.

Nos comícios Ceará é a grande atração. Onde ele está é para onde vai o povo. E se está custando a discursar, o povo não espera, pede: “Ceará! Ceará! Ceará!” Uma feita, após seu inculto discurso, o povo o tomou e o levou em aplauso por alguns quilômetros até sua casa. Andam dizendo que outros candidatos estão tirando proveito da situação. Se o fato é verídico ou não, cada um tire sua conclusão, ademais os fatos falam por si. Recentemente num grande “showmício” de sua coligação, observou-se um grande número de candidatos, uns conhecidos e outros tipo “periquito”. Desde a divulgação do evento, Ceará já era anunciado. A praça se encheu e todos vibraram contaminadamente quando o locutor anunciou: −Senhoras e senhores, com vocês “o grande”, “o fenômeno”, “o tostão contra o milhãããããããããooooooooooooooooooo!”

E assim têm sido todos os comícios. O povo o escolheu e escolheu também o seu slogan de campanha: “Os pequenos também crescem”. E, –inexplicavelmente? – a ceará mania vai tomando proporções maiores na cidade a fora, além de seus limites. Para muitos um grito de esperança, para outros um voto de protesto, de insatisfação, para outros uma preocupação, uma ameaça.

Todo mundo sabe o que ele representa, embora cada um o interprete à sua forma. Uma coisa é clara: Ceará é sem dúvida um “fenômeno”. Não sou eu quem diz, é o povo. E como a própria sabedoria popular ensina, Ceará representa muito mais: ele é a pedra no sapato, a pulga atrás da orelha, a mosca na sopa, a espinha de garganta, o pequeno que incomoda, e por que não o “patinho feio”? Enfim, é a própria voz do povo, fato indispensável na democracia.”

( Crônicas de Edgar, heterônimo de Costa Filho, Membro da Academia Bacabalense de Letras )

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